quinta-feira, 5 de novembro de 2009

VIDA DE VETERINÁRIO

Ser ou não ser?
Querer ou poder?
Ser ou estar veterinário?
São estas indagações que me vêm a mente enquanto contemplo estático o meu consultório..
..a minha função.. a minha profissão ..a missão que me foi confiada.. a maneira que eu encontrei de tornar este mundo um lugar melhor pra se viver
..a minha frente um garotinho de uns 8 anos, lágrimas correm pelo seu rostinho de nene, ele está sentado, de bracinhos cruzados, como um pequeno homenzinho, aguardando..
ao seu lado seu cãozinho, prostrado, inerte, envolto nos lençóis,tomando soro..
..a esta altura o Diazepam que eu administrei na sua veia já fez efeito e ele provavelmente já se imagina correndo no gramado infinito, num lindo dia de sol.. é pra este lugar que eu acredito que todos o cães vão quando deixam este mundo cruel..
Diferente do Golden Retrivier ultragordo, do Dálmata com crises existenciais e os milhares de bibelos em forma de cachorro que comparecem aqui assiduamente no colo de suas mamães - madames, sempre tentando inventar uma nova patologia para seus lulus, este caso era um problema real, uma emergência, uma fatalidade, algo sério que realmente colocava este animalzinho na linha tenue entre a vida e a morte!

HISTÓRICO:

Cão filhote mestiço, sem vacinas, 04 meses de idade, que corria alegremente pelo pasto do sítio com seu proprietário, uma criancinha de 8 anos, em uma manhã ensolarada de 05 de novembro, quando de repente um estalido, um ganido triste e sentido, o animalzinho olha seu dono, com aquele olhar de quem já não pode mais acompanhar a corrida, olha para a patinha, então começa a mancar, de repente não apoia mais o membro anterior esquerdo, de repente o membro começa a inchar de maneira rápida e dolorosa, a dor é demais para um filhote..

MARLEY & EU??

Impossível não lembrar das cenas do início daquele filme, o garotinho e seu "cãopanheiro", seu "cãofidente", a inocencia da infãncia, a ausencia de culpa, sem compromissos, sem horários, sem boletos das casas Bahia pra pagar, apenas o menino e seu cão, amigos inseparáveis, correndo pela relva..
naqueles breves momentos, lembrei com saudade da minha infância, no sítio dos meus avós em Itu, lembrei do Rex.. e me lembrei das nossas caminhadas infinitas..
..que atire o primeiro graveto quem nunca teve seu Rex!
Sim ..a vida é bela, e coisa e tal, de repente..CORTAA!! tudo interrompido..
..mais um belo momento da vida abortado, a inocência também tem seus efeitos colaterais..
quem diria.. de repente aparece uma cobra no meio do mato, e pica o cachorrinho

ROTINA TERAPÊUTICA

È mais uma daquelas horas que a gente age por instinto, são aquelas horas que o sangue que corre nas veias fala mais alto e você não pensa direito, ou pensa demais, e você faz de um tudo pra livrar o animalzinho do sofrimento, com o mesmo fôlego, e aquela vontade de abraçar o mundo com o esteto, você atende o cachorrinho, o menininho e a senhorinha que acompanhava..medetemperaturaveamucosaveahidrataçãoausculta
opulmaoeocoraçãomedetemperaturadenovoavaliaaperfusão,oTPC,
oBPM,aPA,asaturaçãodeO2pegaobracinholimpacomalcoolpegao
garrotepegaocatetercortaoesparadrapopegaaveiapedepra
estagiariaprepararosoroelanãopegaedvocêdáesporroelachora
..aí você mesmo vaipegarosoroencaixanoequipopegaaveiaomenino
desmaiaporquenãopodeversangue, aí..atiazinhachorapedeagua
numdaprapegarporquetotentandopegaraveiaaíelasaisemassinar
otermoesemsaberopreçoeeuficocommedodelasairsempagaroupior
ficarcausandonarecepçãoaieupegoaveiaabroosoropassaesparadrapo
vesenumtádescendomuitorápidoecorroatrasdeladigoqueocasoégrave
gravíssimoelachoraomenininhochoraaestagiariachoraeunumchoro..
mas até que dá vontade viu..

É a hora em que tudo atinge o ápice, o auge, é quando os animos se acalmam, o animalzinho já está estabilizado, é só depois de eu ter descido meio litro de soro fisiológico, de eu ter feito o soro antiofídico / antiinflamatório / antibiotico / antiarritmico / antihemorrágico / broncodilatador / analgésico(s) / diuréticos / antitóxico é que a senhorinha pergunta: "- vai ficar muito caro doutor?"

É a hora que você vai me achar desumano, um crápula, um açougueiro, um traste, um porco capitalista, mas também é a hora que eu me pergunto se na hora que você está morrendo de fome e sem um puto no bolso.. Você entraria no Mestrino´s e mandaria descer o rango pra depois perguntar se vai ficar caro?????

É lógico que essa comparação não faz o menor sentido, e eu realmente devo estar louco se eu acho que vou convencê-los com este tipo de argumento, mas esta também é a hora que eu vos convido a entender que o mundo é feito de diferenças, algumas mais sutis que outras, mas nunca é tarde pra pensar na diferença entre a cerveja do Frangó e da padaria da esquina..
..a diferença entre o Hospital Albert Einstein e a Santa Casa de Ferraz de Vasconcelos..
..entre a comida do Espeto de Prata e do Marmitex de 3 contos..
..a diferença entre Bob´s e McDonald´s

É lógico, meus amigos, este que vos fala não é daqueles que encara o mundo com distinções, sejam elas de qualquer natureza, mas faço essas comparações esdruxulas para me fazer entender, e para situar vossas cabeças no meio do reborduncio que a minha vida se tornou desde o momento que eu comecei a atender o tal cachorrinho do menino..

Então retornando ao consultório, o animalzinho estava sobre os meus cuidados, estava estabilizado e nada mais poderia ser feito em termos de primeiros socorros, agora era esperar a medicação começar a agir e avaliar a resposta da criatura. Era a hora de passar ao proprietario / reponsável que o caso era grave / gravíssimo, que haveria risco de vida eminente e o pior, o orçamento..

Acredito eu que, para nós Médicos Veterinários atuantes, esta seja a pior hora, digo isso porque a faculdade não ensina a gente a mexer com dinheiro, a faculdade não ensina a cobrar, não ensina o valor do serviço que você está aprendendo a prestar, e também não te ensina a ter o menor tato nestas ocasiões, isso somado a nossa compaixão pelos seres vivos, aquele talento nato, aquele dom, que nos impossibilita de ver tudo isso apenas como um simples trabalho, todo esse envolvimento e ternura com pacientes que não falam, não reclamam, não se magoam e dependem de nós para quase tudo! Que transbordam de sentimentos pelos olhinhos e sentem tanta dor, agonia e sofrimento quanto nós humanos!!

Acho que perdi essa aula!! Acho que não tive essa matéria!! Cadê o manual?? Cadê o livro que ensina a lidar com tudo isso??

Ficou caro, muito caro.. caro demais para a incerteza de uma cura que pode nem vir, nem avisar o quanto vai demorar.. e hoje em dia me diz o que não é caro nesse mundo??

Ela sai pra correr atras de alguma ajuda, algum anjo bom que se proponha a arcar com as despesas, pelo menos as medicações, já que da consulta e dos demais honorários meus e de toda a equipe do hospital eu me proponho a abrir mão. Nessas horas até me esqueço que tenho patrão. Sim, veterinário também tem patrão.. ao menos um superior que quer ver seu investimento girar, mas tento fingir que esqueço isso as vezes, faço isso em nome do meu juramento.. da minha função.. da minha profissão ..da missão que me foi confiada.. em nome da maneira que eu encontrei de tornar este mundo um lugar melhor pra se viver..

..mas sobretudo, em nome da minha consciência.

Na hora que deito a cabeça no travesseiro, pesa mais a gratidão por poder fazer o bem do que o esporro..

RESULTADO

Bem, resumindo a história, ela sai, o garoto fica. Fica junto com seu cãozinho, fica por vontade própria, fica pra poder ajudar, pra se sentir útil, fica por estrar preocupado com o seu amigo, fica por parecer a coisa certa a se fazer, fica pra me chamar caso o cãozinho piore.. fica porque não quer ir junto com a senhorinha, porque gosta mais do cachorro do que de qualquer outra pessoa, fica porque não se interessa pela maneira que ela vai resolver esse problema de dinheiro, fica por que não tem outra alternativa, fica porque é criança e não quer saber desses problemas de adulto, fica porque como toda criança, sempre quer uma resolução prática para os seus problemas..

Já não sei mais a esta altura o que importa, o menino fica porque quer, e eu entendo..

Eu entendo, mas os outros não entendem, quem está de fora não entende as decisões que são tomadas em momentos de emergência, mil vezes por dia eu preciso explicar como as coisas funcionam, mil vezes por dia eu tenho que me fazer entender com gestos, atitudes e palavras como o meu mundo funciona, como custa caro, e como é exaustivo o papel de quem cuida dos animais dos outros..

É difícil, na faculdade não ensinam como é complicado, não te preparam pra enfrentar as maldades do mundo e nem te preparam para ser forte e correto no momento que todos querem julgar a culpa nas suas costas..

É difícil, quando a pessoa que você se propos a ajudar te acusa de ser insensível..

..mas foi mais difícil ainda quando fui acusado pela dona de uma ONG que eu havia obrigado a tal senhorinha a ir atras de dinheiro enquanto eu supostamente segurava seu neto como "GARANTIA DE PAGAMENTO PELOS SERVIÇOS PRESTADOS" ( ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !) .
Foi difícil, foi um tapa na cara, uma facada nas costas.. na verdade foi é muito foda, explicar o equívoco cometido, esclarecer minuciosamente como as coisas aconteceram, corrigir a inversão de valores e me inocentar da terrível injustiça da qual eu estava sendo vítima.. logo eu, agora acusado de cárcere privado de menor!!! Já me imaginei na tela do Datena!!

..PRESTANDO ESCLARECIMENTOS

Chamei todos os envolvidos para uma longa dissertação antes que isso tomasse proporções desastrosas, nada melhor do que uma conversa olhos nos olhos, a dona da ONG se acalmou, a senhorinha se acalmou, eu me acalmei..

Tive que explicar tudinho, tim tim por tim tim.. cada passo que eu havia tomado, os "por quês" de cada conduta, a gravidade do caso, a exclusão da opção da eutanásia, aí de novo, os riscos e a gravidade do caso, novamente, cada passo que eu havia tomado, a conduta, e novamente, os riscos e a gravidade do caso.. ufa!

Terminou? Ainda não.. ainda me restava o desfecho, o desafio final, a etapa que finalmente me colocaria em paz com a minha consciência e na plenitude do dever cumprido.. alguém deveria explicar para o menino de 08 anos, que seu amiguinho, seu cãopanheiro, seu cãofidente poderia não voltar dessa viagem.. mas não por falta de capacidade minha, ou do corpo clínico do Hospital, a instrução expressa que me foi passada pelos adultos responsáveis era que se o cãozinho piorasse, deveria ser eutanasiado, devido a sérias restrições financeiras..

Nada compreensível para quem está de fora, mas essa é uma realidade que bate à nossa porta com certa frequência, e de certa forma a vida já se encarregou de me ensinar a olhar para este tipo de conduta com certa frieza, mas já digo que isso não torna esse momento mais fácil pra mim, não é facil parar um coração que quer continuar batendo.. não sei como será de agora em diante, mas no momento, era a hora de explicar de maneira simples, direta, objetiva e delicada, que seu amiguinho já poderia estar, nesse momento, correndo pelo gramado infinito..

..e foi respirando fundo, caminhando num passo cadenciado que eu me dirigi ao menino, do lado do cãozinho, tentando tomar ânimo, tentando resgatar certos sentimentos e sensações há muito tempo já perdidas, buscando argumentos não apenas na minha experiência profissional, mas buscando inspiração em cada livro lido, cada filme assistido, em cada despedida, em cada reencontro, em cada decepção, em cada carta de amor, em cada momento da minha vida que meu coração bateu mais forte e o ar parecia que ia faltar..

..e apesar da batalha que se travava dentro da minha mente e do meu coração, Deus me deu forças e inspiração para articular o diálogo que se seguiu:

- e aí amiguinho..
- e aí Dotor.. ele tá mal né..
- é, tá mal.. muito mal, mas deixa eu te falar uma coisa..
- pode falar..
- olha, quando eu tinha a sua idade, eu também perdi meu cachorrinho, e ainda me lembro dele até hoje, a gente nunca esquece..
- ..hum
- você tá vendo que ela tá mal, e se ele piorar, acho que vou ter que deixá-lo partir, para que ele não sofra. você entende??
- han han..
- sabe, eu também sempre tive cachorro, cresci com um monte deles em volta..

(respira)

..eu acho assim, a gente tem que amá-los tanto, a ponto de saber que a hora deles chegou, ..sabe, pra não sermos egoístas, deixar que eles voltem para Deus..
- tudo bem dotor..
- você não vai ficar bravo comigo se eu deixá-lo partir né?
- não vô não dotor..
- você vai ficar bem?
- vô, vô sim..

..e sem que eu pudesse esperar, o menininho me deu um abraço, se pendurou no meu pescoço, chorando, me abraçou com força, com muita força.. me segurou por uns segundos, não me permitindo saber que sentimento ele me despertara, tão rápido quanto ele me abraçou, ele me soltou, virou as costas e se foi, as senhoras foram atras, seguindo, se despedindo de todos ao redor e sorrindo, como todos os adultos adestrados e politicamente corretos se esforçam pra fazer

..não sei dizer direito o que senti, mas foi algo forte, entrei no hall da clínica, me lembro de alguém ter me perguntado alguma coisa, mas eu continuei andando reto, em silêncio..

..passei na baia do cachorrinho, ele dormia, sedado, já estava estável.. daqui pra frente só Deus sabe..

..entrei na sala de raio X, fechei a porta, me encostei na mesa, liguei o ventilador, ..e chorei!

Meu nome é Alexandre Andrade, sou Médico Veterinário e essa é a minha vida..

Sou grato por estar vivo, por ter sentimentos..
Por não ser mais um morto - vivo a caminhar pelo planeta
Agradeço a vida que eu levo e rezo para que continue assim..
Agradeço o dom de poder transformar sentimentos em palavras!
Agradeço a missão que me foi confiada!
Agradeço pela maneira que eu encontrei de tornar este mundo um lugar melhor para se viver!

Seja bem vindo ao meu Blog!

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