quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O martelo, a bigorna e o gato preto de olhos amarelos

De vez em quando o diabo me aparece e temos longas conversas.. ele em nada se parece com o que dizem dele: rabo, chifres, patas de bode e cheiro de enxofre. Cavalheiro de voz mansa e racional, bem vestido, apreciador de perfumes caros, boas músicas e vinhos finos, me surpreeende sempre pela lógica de seus argumentos. Nada de futilidades, só fala sobre o essencial, estilo que aprendeu com Deus, nos anos em que foi seu discípulo. Percebi que era ele quando notei que trazia na sua mão direita o martelo, e na esquerda, a bigorna. Pois esta é a sua missão: Martelar as certezas; ferro contra ferro, para ver se sobrevivem ao teste..



Ele era um gato preto, de olhos amarelos..



..e eu sou só um médico de bicho..



Ele levava uma vida de gato, pulava muro em um pulo só, subia em telhado só numa mãozada, e claro, corria atrás das gatinhas. Um certo dia ele foi tentar.. escorregou.. a unha não segurou, sei lá.. ele caiu.. e não levantou mais.. Gatos sempre caem em pé, e alguns dizem que eles têm sete vidas.. Bem, não dessa vez



Claro, ele não sabia, mas tinha um disco intervertebral só esperando a oportunidade de estourar. “Protrusão de disco intervertebral”, agora esse é o nome dele; não se move e não sente mais nada da cintura pra baixo. O resto da história é injeção, radiografia, soro, acupuntura, comida na seringa e sondagem uretral.. Prognóstico: Péssimo.. coitado



Ele olha pra mim e eu olho pra ele, quarenta vezes por dia.. medicação quatro vezes por dia. Ele me acompanha com seus olhos amarelos desde o momento em que eu entro na sala até eu sair. Se pudesse falar me perguntaria: “Daê dotôr. Quando vou poder voltar lá na casa daquela gata cheirosinha?? Ela é siamesa e branca.. muito lindinha.. não sei não, achei que depois da gata preta eu não iria mais me apaixonar, mas acho que dessa vez é sério viu..”






Os dias vão passando, ele não quer mais comer.. pra que comida? Pela brecha na janela da internação ele vê aquele solzinho gostoso de se esticar na varanda e sonha com dias melhores, longe dali.. ele sonha com o sofá, ao lado da sua dona, e com a gata siamesa e branca.. lembra do cheiro dela e se arrasta até a água, fica olhando o seu reflexo infeliz nela.. o sol se põe.. o sol nasce de novo.. ele revive mil vezes aquele salto que não deu certo.. Bosta de muro



Os dias vão passando, não há melhora, só piora, e a proprietária decide que não quer mais vê-lo sofrendo assim, ela relembra a sua história, ela busca na memória cansada, historinhas e momentos que não vão mais voltar.. “..minha cama vai ficar tão vazia..”, “..ele parecia um rato na caixa de sapato..”



Ela quer se despedir.. abre o trinco da gaiola, ele olha pra ela, os olhos amarelos já não brilhavam tanto. Ela passa a mão de velhinha na cabeça dele, ele ronrona, abaixa os olhos, e fica assim, não a encara, como se pedisse desculpas por ter que partir tão cedo.. “me desculpe pelo que sou..”



Gatos geralmente não fazem isso, mas ele apenas olha pra mim, nada mais importa nessa hora. Ele não se opõe, não oferece resistência, mesmo no momento que eu espeto o bracinho gordo dele pra pegar a veia.. Ele é só um gato preto, mas se comporta como um homem de verdade. Está calmo, atento.. respira devagarzinho e mexe os bigodinhos, tentando captar os odores da despedida. Ele olha bem fundo nos meus olhos, mira seus olhos amarelos nos olhos verdes da enfermeira. A história dele está terminando, e não haverá nenhum ritual, nenhum ultimo desejo



Me falta tanto coração para entender a condição humana.. essa condição que nos faz sofrer porque somos arrogantes e soberbos.. Tem tanta coisa que eu não entendo. Ele me olha.. por um momento me sinto tão pequeno.. ele parece ler a minha alma.. parece captar minhas tantas fraquezas e inseguranças..



"Presta atenção Alê.. respira".. ele me diz.. seus olhos amarelos me tranquilizam.. ele me faz entender que já não estava mais lá.. ele já havia eutanasiado seu ego, ele já havia se desprendido desse mundo de ilusões sem no entanto eutanasiar seu orgulho e sua dignidade.. animais nunca o fazem, mesmo nos seus últimos momentos.. A partida é silenciosa, sem palavras das quais possamos nos arrepender depois



Ele chapa devagarzinho, as luzes se apagam suavemente, no silêncio ele lembra da tal gata preta que mastigou seu coração. Nunca houve outra igual.. ele lembra do cheirinho da gata siamesa.. ele nem lembra mais do salto infeliz, tudo passou.. a dor passou, não está mais preso na gaiola, não está mais preso no corpo que não se move da cintura pra baixo.. ele se despede dessa existencia sem palavras e sem maus entendidos. Sem medos, sem demônios e sem manias.. Sem compromissos, sem apelidos e sem cultivar sequer meia dúzia de planos.. Sabe-se lá o que vem pela frente agora..



Ele se desprende das belas e pequenas coisas dessa vida, a liberdade de ir e vir sem ter que consultar ninguém. Ele, a noite e o vento no bigode em cima do telhado, a respirada canalha de quem saiu na hora certa, o retorno pra casa de manhãzinha, os mil cheiros consistências e sabores desse mundo.. sua vida foi quase um filme em preto e branco. A gata preta, a siamesa e as tantas outras que passaram pela vida.. família e amigos.. acho que é isso..



Sábio é quem se contenta com o espetáculo do mundo



As cortinas se fecham, agora ele corre no gramado infinito.. Ele é mais um a passear por lá.. mais um em meio a tantos que pra lá mandei.. “Tive que fazer” ..na hora que eu tiver que prestar contas ao criador e ele me perguntar sobre isso o que eu direi? Que era meu TRABALHO?!



Sim Pai.. me perdoe.. era a ferramenta que eu tinha em mãos para aliviar o sofrimento deles.. se houvesse outras alternativas eu lançaria mão delas.. se houvesse outra escolha, se eu pudesse não teria nem ficado lá.. teria ido embora.. nem sempre é tão fácil fugir.. teria dito que deu a minha hora.. responderia ‘não sei’ a todas as perguntas, diria que eu não quero, não posso, não gosto.. mas que jeito?!



Se eu pudesse não gostaria nem de estar por perto.. Não quero ter mais despedidas pra ficar me lembrando.. tudo são frases feitas, olhares e abraços ensaiados.. as coisas acontecem e eu tenho que ficar tentando explicar, é isso? Meu inferno pela porção de paraíso deles? Fecha minha conta vai.. Chega.. já tive demais disso.. Na minha vida tive de cometer vários tipos de eutanásia. Sim, fiz o que pude, tentei, busquei o máximo de acerto e aprovação, dei meu máximo, mas não adiantou.. não quero, não posso, não gosto.. mas que jeito?!






O diabo trazia em uma mão o martelo, e na outra a bigorna. Colocou sobre a bigorna um frágil e delicado bibelô feito de louça, me lamentei que ele fosse esmigalhá-lo.



Ele já se preparava para dar a primeira martelada quando o interrompi: - Que é isso que você vai quebrar? Vai se partir em mil pedaços? - Não tenho outra alternativa - ele me respondeu - É parte de uma aposta que fiz com Deus. Esse bibelô delicado é o casamento, e você está certo, não resistirá ao ferro do meu martelo!



Fiquei indignado que ele estivesse maquinando coisa tão perversa e passei ao ataque: - Não é a toa que os religiosos dizem que vc é o anticristo, Deus junta, você separa! Essa sua bigorna já destruiu muitos lares!



Ele não tinha pressa. Descansou o seu martelo e me falou com sua voz mansa: - Já estou acostumado a tais calúnias, mas não existe coisa alguma mais distante da verdade, se há uma coisa que eu desejo é um casamento duradouro, até que a morte os separe. Se ponho o casamento na bigorna é justamente para provar que a receita do Criador não funciona, a minha é muito mais eficaz!



Como se meu silencio indicasse a minha disposição em ouvi-lo, ele continuou a falar: - Todo mundo sabe que, no início, eu era a mão direita de Deus, estávamos de acordo em tudo. Ele mandava, eu fazia. Foi por causa do casamento que nos separamos. Quando Deus disse que não era bom que o homem estivesse só, eu concordei. Quando Ele disse que esta união teria de ser sem fim, até a morte, eu aplaudi. Mas foi aí que discordamos. Para colar o homem na mulher, Deus foi buscar uma bisnaguinha de amor. Protestei. Argumentei; - Senhor! Amor é coisa muito fraca, de duração efêmera! Quem é colado com amor logo se separa! Amor é chama tênue, fogo de palha. Não pode ser imortal. Chama de vela fraquinha, que se vai com qquer ventinho.. Amor é bibelô de louça. Todos os amantes sabem disso, e é por isso que sentem ciúmes. Ciúme é a consciência dolorosa de que o objeto amado não é posse, ele pode voar a qquer momento. Por isso o amor é doloroso, cheio de incertezas. Discreto tocar de dedos, suave encontro de olhares.



Coisa deliciosa, sem dúvida, e é por isso mesmo, por ser tão discreto e suave que se recusa a segurar. Amar é ter um pássaro pousado no dedo, a qquer momento ele pode voar. Como construir uma relação duradoura com cola tão fraquinha? Por isso os casais se separam, por causa do amor, pela ilusão de um outro amor. Qquer tolo sabe que o pássaro só fica se estiver na gaiola. O amor é cola fraca para produzir um casamento duradouro porque no amor vive o maior inimigo da estabilidade: a liberdade. É preciso que o pássaro aprenda que é inútil bater asas. Um casamento duradouro é aquele em que o homem e a mulher perderam as ilusões do amor. - Foi aí que nos separamos – ele continuou – não porque discordássemos que casamento deveria ser eterno. Nos separamos porque não estávamos de acordo sobre o que é que junta um homem e uma mulher, eternamente. Deus é um romântico. Eu sou um realista! –



Qual foi então a sua sugestão? Que cola deveria ser usada? Perguntei perplexo.. - O ódio – respondeu ele – Enganam-se aqueles que dizem que o ódio separa, a verdade é que o ódio junta as pessoas, diferente do fogo da vela, o fogo do ódio é como um vulcão, não se apaga nunca, por fora pode aparecer adormecido, no fundo as chamas crepitam. A diferença entre os dois? O amor, por causa da liberdade, abre a mão e deixa o outro ir, no amor existe a permanente possibilidade de separação. O ódio segura, não tenha dúvidas, os casamentos mais sólidos são baseados no ódio, e sabe por que o ódio não deixa ir? Porque ele não suporta a fantasia do outro voando livre, feliz. O ódio constrói gaiolas, e lá dentro ficam os dois, moendo-se mutuamente numa máquina de moer carne que gira sem parar, cada um se nutrindo da infelicidade que pode causar no outro. As pessoas ficam juntas para se torturarem. Não menospreze o poder do sadismo: A suprema felicidade de fazer o outro infeliz!



Com estas palavras ele tomou do seu martelo e voltou ao seu trabalho: - Me dá licença, mas tenho de provar que eu, e não Deus, sou quem sabe a receita do casamento que só a morte pode separar!



Ele respirou fundo, apenas soltou o peso do martelo sobre o bibelô, que se despedaçou. Os milhões de pedacinhos se espalharam pelo consultório, embaixo da minha cadeira, por entre as pernas da mesa, pelos corredores da clínica e debaixo das gaiolas.



Ele se virou e riu pela bagunça que deixara no meu mundo e na minha cabeça..



Quando eu fico sem argumentos, faço um esforço danado pra ficar calado.. comecei a limpar a bagunça pós eutanasia de cima da mesa. Preciso varrer essa sala, preciso respirar, preciso me mover, preciso dar um destino ao corpinho pequeno dentro do saco preto - Apenas permita-me discordar, distinto cavalheiro - eu disse, enquanto o diabo me dava de ombros.



Ele percebeu que eu ainda buscava uma maneira de virar o jogo, de argumentar fatos e pensamentos que mostrem que de alguma maneira, ele estava errado..



Tais palavras nunca surgiram



Fui pra casa pensando nas tantas certezas que tive na vida, e que não sobreviveram ao martelo e a bigorna. Pensei no gato preto de olhos amarelos. Pensei se o amor realmente é a cola mais adequada para unir as pessoas, e qual seria a cola mais apropriada para unir a nossa ética profissional, as nossas frágeis crenças, e a nossa paixão pela carreira.



Pensei nos limites que tentamos ultrapassar todos os dias, na fragilidade da vida, e na loucura de tudo isso..



Se há um Deus por trás disso – e eu sei que há – Ele quer que eu seja Médico Veterinário, e quer que eu faça o bem.. e não vale a pena enlouquecer por isso.



Não vou questionar o POR QUE de Deus me mandar esses desafios e questionamentos.. vou apenas agradecer.



Uma vez acreditei que tudo que a gente precisava para construir um mundo melhor estava ao alcance da mão.. Hoje entendo que não é bem assim..



Eu nem me despedi de ninguém, enfiei um Led no som do carro e compreendi que o inferno está mais perto do que eu pensava





Inspirado em crônica extraída de “O Retorno e Terno”, Rubem Alves, Ed Papirus 1992

O martelo, a bigorna e o gato preto de olhos amarelos

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Como vai você?

Pensar MUITO bem antes de responder esta pergunta..

..e lembrar de agradecer MUITO por tudo que temos